Por que se chama kimura

A chave mais famosa do jiu-jitsu leva o nome de quem a aplicou contra Hélio Gracie, não de quem a inventou. E é uma derrota que os Gracie foram os primeiros a contar.

BJJ Square · Atualizada em 11/08/2026

Em 23 de outubro de 1951, no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, diante de cerca de vinte mil pessoas, Hélio Gracie enfrenta Masahiko Kimura. As regras são o que hoje a gente chamaria de grappling puro: três rounds de dez minutos, todas as chaves permitidas, vitória só por finalização ou por intervenção do córner.

No segundo round Kimura fecha uma chave de ombro. Hélio não bate. A chave aperta, o braço cede, e é Carlos Gracie — o irmão, da beira do tatame — quem joga a toalha. Passaram-se cerca de treze minutos no total.

A técnica já existia. O nome não

Kimura não inventou nada naquela noite. No judô a chave se chama ude garami, “braço enrolado”, e está no programa desde sempre; no catch wrestling americano a mesma coisa se chama double wristlock. Kimura chegou ao Maracanã com uma técnica que todo judoca conhecia.

O que ele deixou não é a técnica: é o nome. E, no Brasil, quem deu esse nome foram outras pessoas.

Quando o nome apareceu de verdade

A versão que se ouve na academia diz que os brasileiros rebatizaram a chave de “kimura” naquela mesma noite, por causa da luta. O relato de arquivo mais detalhado diz outra coisa: que o termo — no começo kimuriana — apareceu na imprensa esportiva brasileira durante a segunda viagem de Kimura ao Brasil, em 1959. Oito anos depois.

Nota Essa datação vem da pesquisa de Roberto Pedreira (“Choque”, vol. 2), o único trabalho de arquivo que trata do ponto. As outras fontes disponíveis não datam a adoção do nome: não é uma questão fechada, e é justo saber disso.

O que não sabemos

  • Quanto pesavam os dois. Nunca foi registrado oficialmente. Uma diferença de dez a quinze quilos a favor de Kimura é o número que se costuma citar, mas é uma estimativa passada adiante, não uma medição.
  • Quantas vezes o braço cedeu. O relato tradicional diz duas; as imagens da luta não permitem afirmar isso.
  • Quem, exatamente, usou o nome primeiro. Nenhuma fonte diz.

Por que essa história sobreviveu

Derrota costuma ser esquecida. Essa não — e não porque alguém a usou contra os Gracie: porque foram eles que a contaram, e contaram por décadas. Hélio saiu do Maracanã com o braço quebrado e a reputação intacta, por ter ido até o fim contra um adversário maior e mais forte do que ele.

É por isso que o nome ficou grudado na chave em vez de sumir. No jiu-jitsu o jeito de perder pesa tanto quanto o jeito de ganhar, e aquela noite no Maracanã é a demonstração mais citada disso. Toda vez que alguém finaliza uma kimura na academia, está lembrando dela sem saber.

Nota Uma técnica levar o nome de quem a aplicou em você, e não de quem a inventou, não é exceção: no jiu-jitsu é quase a regra. Acontece a mesma coisa com o ezequiel e com a guarda De La Riva.

As outras palavras que você vai ouvir na academia, explicadas uma a uma: Glossário do BJJ.

Perguntas frequentes

Quem foi Masahiko Kimura?
Um judoca japonês nascido em 1917, considerado o mais forte da sua geração. Depois da guerra passou a fazer exibições profissionais no exterior, e foi assim que acabou no Brasil.
Quem inventou a kimura?
Ninguém do jiu-jitsu brasileiro. A chave já existia como ude garami no judô e como double wristlock no catch wrestling. Kimura deu o nome, não a origem.
O que aconteceu com Hélio Gracie naquela luta?
Ele não bateu. O braço cedeu e foi o irmão, Carlos, quem parou a luta de fora, depois de cerca de treze minutos.
Quando nasceu o nome “kimura”?
Não é certo. O relato mais bem documentado situa isso por volta de 1959, na imprensa brasileira, durante a segunda viagem de Kimura ao Brasil — e não na noite da luta de 1951.

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